Em diferentes tendências que caracterizam nosso tempo, os 7 artistas dessa
mostra têm como referência a natureza, não como modelo mas para
reverencia-la. Ramiro, Juraci Dórea e Josiltom Tonm exaltam a realidade das
formas e cores da natureza nas árvores que foram derrubadas, raízes de
mangues destruídos, pedras e cristais de rocha que escaparam dos exportadores. Adriano recorre ao visual, cheiros e sabores de frutas maduras, para compor em instalação sua natureza viva. Juarez define conceitos e preconceitos no realismo das cabaças. Baldomiro usa das palmas
de coqueiros à simples areia da praia para revelar a potencia da arte real
da natureza. A inquietação da busca que anima Bel Borba, se irmana ao jogo
da natureza entre o real e o aparente, no aventureiro curso do cotidiano.
O grande escultor dessa mostra é a natureza. Reverenciada pelos artistas, eles chamam a atenção dos espectadores para a harmonia das formas, linhas, texturas, tramas, nervuras, relevos e vazados, que a botânica da natureza engendra com harmonia incomparável. A elegância o tempo assegura, imprimindo-lhes suaves tons de cinzas e sépias, ao secá-las.
Apreensivos diante da continua depredação que a natureza vem sofrendo, os artistas apresentam em sua defesa o visual da arte/natura, que carrega a força das palavras.
Com a percepção de artista habituado a balancear linhas e formas no desenho, Baldomiro escolhe na natureza o material pronto para desenvolver sua arte. Capim seco, raízes, velhos cachos entre espadas de palmeiras, folhas secas de bananeira, entram na concepção dos seus objetos que exaltam o trabalho impar da natureza, enfatizando na escolha dos elementos que compõem seus objetos, a leveza e inimitável aparente simetria.
Juraci Dórea é filho de fazendeiro de Feira de Santana e cresceu ouvindo que do boi só não se aproveita o berro, tendo o gado dado origem ao desenvolvimento da sua cidade. Exacerbando no naturalismo da proposta, o artista traz o produto orgânico dos bois, com toda a gama que ele agrega: a fauna minúscula que o estrume alimenta, pedregulhos, folhas secas , uma plantinha que consegue vicejar, numa incrível sucessão de texturas e formas de inegável atração. Pena que na secagem se perca o cheiro dos currais da roça, que o mestre Bandeira cantou em verso.
Fazer arte dos excretos nessa época ingrata quando dirigentes da área artística primam pelo oposto, extrapola a ironia desde o titulo - Concerto para Raposas e Violoncelo – ao refinamento do modo como usou o material, para virar lição. Quem sabe, sabe.
Josiltom trabalha as madeiras e as pedras que a nossa natureza pródiga tem em profusão: peroba, maçaranduba, pau brasil, canela, sucupira, pau d’arco, louro, bem como o mármore de Itapebi, granitos, quartzos, pedra sabão. O artista exalta no tratamento as cores e propriedades intrínsecas do material, criando esculturas originais no modo como agrega os elementos, unindo com equilíbrio às vezes na mesma peça as características dispares do vegetal com as do mineral. Sem recorrer a qualquer artifício, são as cores naturais, as rajas, os múltiplas partículas que a natureza compôs em certas pedras, que JT enaltece no seu trabalho.
Invertendo a proposta de artistas que pintavam naturezas mortas, Adriano lança mão de alguns dos mais atraentes produtos da natureza, as frutas, arrumadas como apareciam nas telas, e acrescentam cheiros ao visual da sua Natureza Viva. Na segunda versão as frutas são esculpidas, e seus sabores serão apreciados no final da noite.
A intenção do artista em apontar o efêmero da vida, ressalta no contraste das frutas substituídas por dois crânios assinalando o eterno da morte: um humano e um de tartaruga, que nos remete à bárbara matança de animais.
Dos primeiros artistas a se utilizar na arte do produto da natureza, Juarez fez uso das cabaças para compor instigantes esculturas na intenção de derrubar a mítica em torno do sexo, gerador da vida entre os seres animados. Buscava as formas sugestivas, a perfeição das superfícies curvas, e sem mudar a cor natural, uniu as cabaças às significativas aberturas, saliências, reentrâncias e tonalidades dos búzios, amolgados com a fibra de vidro.
Como em qualquer trabalho de Juarez, se no esboço anterior que cria deixa claro o conceito, a perfeição da técnica ao unir as peças assegura a integridade do escultura.
Depois de confirmar sua participação Ramiro foi surpreendido com o convite de Emmanuel Araújo para a exposição no Museu Afro, paralela à Bienal de S. Paulo, para onde levou a arvore de seis metros de copa que pretendia expor na Natureza Reverenciada.
A engenhosa escultura em jacarandá esconde um abacate que se abre em fatia, mostrando a semente, enquanto a maior explicita a sua marca de dar ao abstrato um leve toque realista, ao associar a forma orgânica do galho à figura humana.
O que tem a ver a escultura de Bel Borba com a natureza? Só o conhecimento do trabalho do artista que acompanho desde os primeiros insetos gigantes desenhados com aerógrafo, me levou a incluí-lo nessa curadoria. Bel sempre consegue em surpreender, a cada nova exposição ou simples visita ao atelier. O que faria para reverenciar a natureza?
O artista chegou atrasado para a montagem de sábado, estacionou o carro no passeio, e enquanto atapetava o carro de grama, começava a juntar gente. Olhavam, comentavam, fotografavam e queriam saber pra que era. A frágil grama verde cobrindo literalmente a maquina de cortar distancias, estabelecia a vitória da natureza, e provocava o impacto de sempre.
Matilde Matos
(da ABCA e AICA)

EBEC - Escola Bahiana de Expansão Cultural Ltda
Canela - Rua João das Botas, 121 – Tel (71) 3328-7399
Pituba - Rua Amazonas, 746 – Tel (71) 3240-4743