IconeGaleria Ebec - Crítica - por Matilde Matos

Mostra de Matrizes

As gravuras são sempre expostas, mas quase nunca o público tem acesso à matriz, sua fonte reprodutora. É com prazer que apresento na EBEC Galeria de Arte essa mostra de matrizes de gravações sobre metal, madeira, tecido sintético, linóleo e pedra.

Adalberto Alves, Adriano, Baldomiro, Mestre Duda e William A. formam um grupo coeso de gravadores que vem expondo com regularidade. Nessa mostra, admirando a técnica da gravação sobre metal de Juan Toulier, incluíram suas matrizes (in memoriam).

O apego que a gravura desperta em seus seguidores, leva esses artistas a novas experiências, mais evidentes nas matrizes, que exigem sem oferecer a ajuda essencial do claro/escuro, a compreensão exata de que o espaço tem ressonâncias, e o plano é o elemento criador para a troca recíproca de energia entre o artista e a superfície.

Baldomiro

A constância do trabalho de Baldomiro está representada nas dezenas de suas matrizes de serigrafia empilhadas nessa imponente torre sinuosa, que o artista ergueu em homenagem à Torre Infinita de Brancusi. A qualidade das serigrafias se constata nos exemplares expostos.

O processo da serigrafia é feito com mesa de luz, que pode ser substituída pela luz do sol. Na matriz menor, a mão do artista é revelada ao sol, enquanto a Digital resulta do seu trabalho na areia da praia, evidenciando ambas a ligação intrínseca do artista com a natureza.

Adriano Castro

O tema recorrente das gravuras de Adriano é a figura humana, atrelada aos aspectos políticos e sociais do nosso tempo, dos guerrilheiros armados às figuras únicas que chamaram sua atenção de algum modo, no contexto social. Seu traço é sucinto e objetivo. Sem qualquer preocupação com preciosismos, passa a idéia que o impulsionou, ao ritmo do nosso tempo. Nas monotipias que faz eliminando a matriz deixa bem claro o ritmo e o visual contemporâneos.

As xilogravuras dessas matrizes estão na Bienal Ibero Americana de Gravura na Espanha. A mulher, figura recorrente no seu trabalho, tem um toque lírico que induz seu sentimento.

A mesma mulher na gravura em metal atesta a passagem do tempo que lhe tirou o frescor juvenil dos cabelos, do busto, e até a flor aparece murcha. Dia de finados é o seu titulo.

As copias dessas matrizes de guerrilheiros sobre linóleo participaram de salões na Bósnia, Itália, Espanha e França.

Adalberto Alves

O artista apresenta nas nove matrizes gravadas no metal, suas reflexões sobre a matéria orgânica que constitui o ser humano, revelado em distintas posições e expressões corporais, repetidamente. A visão percorre as figuras da mesma placa em busca das variações que não acontecem, a excelência da técnica exposta na exatidão dos clones, a nos ameaçarem com o estigma da massificação. Outras nos mostram a fragilidade inerente à condição humana na sua luta em prolongar a vida diante da inexorabilidade da morte.

Se na frieza do latão se vê assim, imagino a força da reprodução no papel com a carga escura das nuances ressaltando as expressões desse figurativo contemporâneo de Adalberto Alves.

Desenhos do artista reunidos em instalação, conquistaram prêmio na última Bienal do Recôncavo.

William A.

Embora a técnica preferida do artista seja a lito, William apresenta nesta mostra seus trabalhos com o metal. Gosta de experimentar e usa com liberdade o que a gravura lhe ensinou para compor o seu estilo especifico, que chama atenção pelo modo exato como cria sucintas formas sobre texturas de surpreende efeito, especialmente quando trabalha a lito em varias impressões de cor. A madeira usa quase exclusivamente para conseguir texturas.

Premiado recentemente em salão na Espanha e Salão Regional de 2006, William tem exposto regularmente em salões de diversas cidades européias.

Juan Toulier

Peruano de nascimento com vivencia baiana e depois no Rio onde foi aplicado aluno de Anna Letícia, pode se perceber a excelente técnica da gravura em metal de Toulier nessas placas em aço, latão e cobre. Grava com facilidade no metal, o traço seguro do seu desenho, seja figurativo ou abstrato, estilo em que cria formas com refinado senso estético.

Mestre Duda

Mestre Duda incorpora com dignidade a tradição histórica da gravura na Bahia. Dos primeiros a desenvolver a gravura sobre placas de madeira, nos anos 50, sua arte passa pelo coração. Jamais se afastou do motivo que faz ele bater mais rápido: a Bahia, sua gente, seus costumes e principalmente esse mar que nos cerca. Esse amor o leva a fazer uma arte popular com a ciência e consciência que deram em outra área a Pixinguinha, Cartola, Batatinha, Luiz Gonzaga e tantos outros, o lugar especial que ocupam também no coração dos brasileiros.

Matilde Matos
(da ABCA e AICA)

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